Em uma entrevista com o jornal Folha na semana passada, o economista irlandês Marc Morgan Milá, 26, diz que a contenção dos gastos do governo do presidente Michel Temer vai afectar especialmente os mais pobres.

As novas conclusões do economista estão provocando um debate sobre a realidade dos últimos 15 anos: a desigualdade no Brasil não caiu como se pensava anteriormente.

Para ele, os governantes brasileiros sucessivos optou por não enfrentar o problema, evitando políticas que poderiam limitar a renda do topo da pirâmide, como um sistema fiscal mais justo.

“A história recente do Brasil nos leva a dizer que não têm uma escolha política para a desigualdade.”, Disse ele.

Milá é no Brasil, onde ele participa de estudos com economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O grupo pretende lançar, este ano, uma série sobre a desigualdade brasileira que começou em 1926.

O economista diz que uma análise mais detalhada mostra que entre 2001 e 2015 a desigualdade “não caiu tanto quanto se imaginava. Meu estudo mostra que o declínio na desigualdade é muito menor.”

O grupo 1% mais rico tem cerca de 1,4 milhões de pessoas, com renda anual de R $ 287 mil. O mais rico 0,1% reúne 140 mil pessoas com uma renda mínima de R $ 1,4 milhões. Enquanto isso, a renda média anual da população total é de R $ 35 mil. É uma grande discrepância. Este é o ponto importante no caso brasileiro: a concentração de riqueza é muito elevado, diz Milá.

Segundo o economista, a história recente indica que houve uma escolha política para a desigualdade e dois fatores ilustrar isso: a ausência de uma reforma agrária e um sistema que sobrecarrega os pobres. Para nós, os estrangeiros, é impressionante que as taxas de imposto sobre herança são de 2% a 4%, em outros países chega a 30%, a tributação da riqueza está em torno de 5%, enquanto o salário mais pobres pelo menos 30% de sua renda através de impostos indirectos na luz e comida.

“… O congelamento dos gastos públicos por vinte anos pode ter um impacto negativo sobre a desigualdade porque as pessoas mais pobres são dependentes desses gastos …”

“… a legislação de Terras e política fiscal, quer na criação de mais justa tributação ou na retirada de renúncias que beneficiam os mais ricos, também estão pesando a conta …”

Mas os pobres ainda são muito pobres e a diferença de renda entre os dois extremos é muito alto. Ao excluir os 20 por cento, o rendimento dos restantes 80 por cento no Brasil é equivalente ao dos 20 por cento mais pobres na França. A desigualdade é semelhante à da França no final do século 19, diz Milá.

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