setor de serviços cresceu 0,6% no segundo trimestre deste ano, segundo dados divulgados nesta sexta-feira (1) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esta é a segunda alta seguida após oito trimestres de queda.

O movimento ainda é tímido, mas contribuiu para uma alta de 0,2% no Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre.

Na divulgação dos dados do PIB do primeiro trimestre, feita em junho, o IBGE informou que a taxa de crescimento do setor de serviços foi de 0%. Nesta sexta, porém, o instituto revisou o índice para 0,2%.

São consideradas atividades de serviços os transportes, comércio, limpeza, alimentação, telemarketing, hospedagem e beleza. É o segmento de maior peso na economia brasileira. Ele responde sozinho por cerca de 70% do PIB.

Serviços no Brasil
Setor teve segunda alta seguida após oito quedas; veja evolução da taxa de comparação com trimestre anterior
Taxa trimestral (%)-1,3-1,3-1,4-1,4-1-1-0,6-0,6-0,5-0,5-0,7-0,7-0,5-0,5-0,7-0,70,20,20,60,61º tri de 20152º tri de 20153º tri de 20154º tri de 20151º tri de 20162º tri de 20163º tri de 20164º tri de 20161º tri de 20172º tri de 2017-1,5-1-0,500,51
Fonte: IBGE

Primeiro a cair, último a subir

Segundo especialistas consultados pelo G1, em um período de crise, o setor é o primeiro a sentir as consequências. “Com a redução do emprego e da atividade econômica, a demanda interna diminui. E infelizmente não temos muita exportação de serviços [no Brasil]”, explica o presidente da Confederação Nacional dos Serviços (CNS), Luigi Nese.

O segmento também é o último a se recuperar por completo, porque engloba setores de consumo considerados não essenciais e, em alguns casos, depende também da retomada da indústria. Apesar disso, os serviços já apresentam reflexos de uma possível recuperação.

“Quando tem uma melhoria na condição econômica, as pessoas começam a cortar o cabelo, fazer unha toda semana e resgatar seus planos de saúde e seguros. São os primeiros movimentos de que está havendo uma melhoria na renda”, diz Otto Nogami, professor do Insper.

Setor de serviços volta a crescer

Setor de serviços volta a crescer

Novos contratos e lei da terceirização

Para Eduardo Santos, diretor e proprietário da empresa de telemarketing Celsolution, em São Paulo, a melhora nos negócios foi visível nos últimos meses.

Empresa de telemarketing de Eduardo Santos abriu novos contratos e abriu vagas nos últimos meses (Foto: Fabio Tito/G1)

Empresa de telemarketing de Eduardo Santos abriu novos contratos e abriu vagas nos últimos meses (Foto: Fabio Tito/G1)

No caso da empresa dele, o que puxou o crescimento foi a lei da terceirização, sancionada pelo presidente Michel Temer em 31 de março. A legislação estabelece critérios para esse tipo de contratação. “As pessoas perderam o medo de terceirizar. Antes, não faziam isso porque tinham receios de gerar vínculos trabalhistas e depois ter um processo”, diz.

A empresa, que oferece serviços de telemarketing e de consultoria, chegou a ter apenas 10 funcionários durante o período mais forte da crise, em 2015. Hoje, está com 112, em parte graças aos novos contratos fechados nos últimos meses, que aumentaram a contratação de funcionários em 40%.

Mais empregos

O crescimento do setor trouxe um leve aumento no volume de empregos. No segundo trimestre, o segmento de serviços ampliou em 1,4% o número de trabalhadores formais e informais em relação a 3 meses antes, segundo dados do IBGE compilados pela Confederação Nacional dos Serviços (CNS).

Já considerando somente os empregos com carteira assinada, a expansão no segmento foi de apenas 0,2% no segundo trimestre, de acordo com números do Ministério do Trabalho filtrados pela CNS.

Maila Gil, proprietária de uma empresa de limpeza na Zona Norte de São Paulo, a Mary Help, disse que aumentou a procura de diaristas para fazer cadastros na sua empresa. Segundo ela, a procura pelo serviço também cresceu. A empresa registrou um crescimento mês a mês de 8% a 10% no último trimestre.

Maila Gil conta que sua empresa de limpeza teve crescimento mês a mês de 8% (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Maila Gil conta que sua empresa de limpeza teve crescimento mês a mês de 8% (Foto: Marcelo Brandt/G1)

Ajudinha do FGTS

Para Nese, da CNS, a reação no setor veio ancorada no comércio e nos serviços prestados às famílias (onde se encaixam as atividades dos restaurantes e salões de beleza, por exemplo). Segundo ele, a liberação dos saques das contas inativas do FGTS incentivou o consumo nesses dois nichos. Ao todo, a população sacou R$ 44 bilhões entre março e julho.

“Algumas pessoas pagaram contas e voltaram a fazer empréstimos e outras gastaram”, avalia.

Na rede de supermercados Hirota, que tem 23 lojas na região metropolitana de São Paulo, o movimento vem crescendo desde o começo deste ano. Segundo Hélio Freddi, diretor de marketing da empresa, o faturamento subiu cerca de 4% no primeiro semestre, na comparação com o mesmo período de 2016.

Segundo Mereb, do IBRE/FGV, outros setores também ajudaram no índice positivo dos serviços. “Há alguns grupos dentro da indústria que estão prejudicando uma retomada mais rápida desse setor, principalmente a construção civil. Mas a indústria de transformação já vem apresentando sinais tímidos de recuperação, o que, por sua vez, também repercute favoravelmente nos serviços”, diz.

Para os próximos meses, Nogami, do Insper, cita a liberação para saques do PIS/Pasep para idosos, cujo calendário de saques deve começar em outubro. “Isso deve refletir no terceiro trimestre, mas são tentativas do governo de obter um resultado positivo, não é nada sustentável. É temeroso falar de retomada de crescimento”, afirma.

Recuperação lenta

Apesar de ter mudado de rumo e voltado a crescer, os especialistas alertam que a recuperação dos serviços deverá ser lenta e gradual.

Iris Rocha, dono de um salão de beleza na região central de São Paulo, diz que notou um certo aumento no fluxo de clientes nos últimos meses, mas ainda não se animou. Seu faturamento mensal, que há 2 anos era de cerca de R$ 50 mil, agora não passa dos R$ 35 mil.

O cabeleireiro Iris Rocha, dono de um salão na região central de São Paulo:

O cabeleireiro Iris Rocha, dono de um salão na região central de São Paulo: “movimento ainda está instável” (Foto: Celso Tavares/G1)

“De dois meses para cá, deu uma ‘melhoradinha’, mas não estou muito entusiasmado porque o movimento está instável. Na semana passada, teve um dia em que abri o salão às 8h e o primeiro cliente só apareceu às 13h”, conta o cabeleireiro.

Já para Josenaldo Vidal, que controla junto com três sócios uma rede de dez restaurantes em São Paulo, a virada ainda não veio.

“Não melhorou ainda, mas a gente não pode reclamar. Abrimos duas unidades do Villa Coqueiros de 2015 para 2017, enquanto todo mundo está fechando. Mas a gente almejava crescer 40% e isso não aconteceu. Está complicado”, conta.

O pesquisador Julio Mereb, do IBRE/FGV, explica que o ritmo de expansão do segmento de serviços está atrelado à evolução do emprego na economia. Como o mercado de trabalho continua fraco, essa recuperação deve ser lenta e gradual, segundo ele.

Para Nogami, do Insper, os resultados do terceiro trimestre de 2017 vão ser um bom indicador para saber se a melhora na situação econômica é, de fato, sustentável. “As empresas começam a se preparar para as festas do final do ano, então alguns setores começam a contratar. Por isso, caracteristicamente, o terceiro trimestre costuma apresentar uma boa performance.”

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