Ao menos seis armas usada por policiais foram disparadas durante a ação de reintegração de posse em Pau D’arco, sudeste do Pará, que culminou no assassinato de dez trabalhadores rurais. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (28), durante coletiva de imprensa realizada em Belém, para apresentar o resultado da perícia da Polícia Federal. De acordo com os resultados da perícia, a principal linha de investigação é de que não houve confronto e sim execução. Os policiais teriam atirado contra os trabalhadores rurais em uma ação planejada.

A chacina de Pau D’Arco, como o crime ficou conhecido, aconteceu no dia 24 de maio, na fazenda Santa Lúcia. Um grupo de policiais civis e militares foi até a fazenda para dar cumprimento a mandados de prisão de suspeitos de envolvimento na morte de Marcos Batista Ramos Montenegro, um segurança da fazenda que foi assassinado no dia 30 de abril.

Entre as principais conclusões da perícia que foram apresentadas na coletiva de imprensa, estão que os policiais foram dividos em grupos: um seguiu a pé e os outros em carros. Ao perceber a presença da polícia, os posseiros fugiram para um ponto no interior da fazenda. Como chovia no local, os policias encontraram os posseiros abrigados em baixo de uma lona e dispararam. Quatro pessoas foram atingidas. Os demais trabalhadores rurais foram rendidos e, em seguida, houve outra sequência de disparos. No total, dez agricultores foram mortos. Nenhum policial foi atingido.

Seis as armas dos 29 policiais civis e militares que participaram da ação efetivaram disparos. De acordo com a perícia, não há indícios de que os trabalhadores rurais tenham atirado. Embora cápsulas de armas dos agricultores tenham sido encontradas no local, há depoimentos de tetemunhas que indicam que tais armas foram usadas pelos policiais contra as vítimas.

A perícia feita nos corpos concluiu que nove posseiros foram baleados no peito e uma mulher atingida na cabeça com um tiro à queima-roupa. Ainda segundo os peritos, não havia marcas de bala nos coletes dos policiais. “Tudo indica que houve uma execução sumária”, diz o secretário da Segup, Jeannot Jansen.

Versões

De acordo com a polícia, os assentados tinham um arsenal de armas de fogo e reagiram à presença dos policiais. Houve troca de tiros, que resultou nas mortes. Mas, familiares das vítimas e sobreviventes alegam que a ocupação da fazenda era pacífica, que os policiais chegaram de forma truculenta e atiraram sem provocação.

Vítimas foram enterradas com corpos em estado de putrefação (Foto: Mario Campagnani/Justiça Global/Divulgação)

Vítimas foram enterradas com corpos em estado de putrefação

Segundo a Comissão de Direitos Humanos da Alepa, no dia em que os posseiros foram mortos, policiais envolvidos na operação retiraram os corpos antes que perícia fosse realizada.

Dias após a chacina, a Segup, que inicialmente divulgou que o caso fora um confronto com troca de tiros, retificou a informação. No dia 12 de julho, o secretário da Segup, Jeannot Jansen, confirmou em uma entrevista coletiva que as mortes dos dez trabalhadores rurais na chacina da fazenda Santa Lúcia, em Pau D’arco, tinham características de execução. “Há fortíssimos indícios que houve execução. Não foi legítima defesa”, disse Jeannot Jansen.

Corpos das vítimas do massacre em fazenda no Pará  (Foto: Lunae Parracho/Reuters )

Prisões

Treze policiais foram presos suspeitos de participar do crime. A Justiça determinou a prisão dos policiais por 30 dias para evitar que eles pudessem ameaçar testemunhas e atrapalhar as investigações. À época das prisões, foi apontado que havia indícios de manipulação de provas para encobrir uma execução planejada. No dia 8 de agosto, o juiz de Redenção, Jun Kubota decidiu, negou o pedido de prorrogação da prisão temporária e liberou os policiais.

A Polícia Federal realizou a reconstituição da chacina que matou 10 pessoas na fazenda Santa Lúcia, em Pau D'Arco. (Foto: Reprodução/TV Liberal)

A Polícia Federal realizou a reconstituição da chacina que matou 10 pessoas na fazenda Santa Lúcia, em Pau D’Arco. (Foto: Reprodução/TV Liberal)

Perícia

A Polícia Federal realizou a reconstituição para levantar o que ocorreu na fazenda Santa Lúcia. Sessenta atores participaram da reconstituição, considerada a maior reprodução de crime já realizada pelos policiais do Pará. Além dos atores, uma equipe de peritos criminais federais de Belém e Brasília, Policiais Civis e Militares e técnicos do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves também acompanharam a reconstituição.

Sobreviventes disseram que os posseiros foram executados. Policiais que participaram da operação afirmaram que houve confronto.

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